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Padre Cicero e a política

A vida do “Padim Ciço” dos romeiros e fiéis, mais amado pode ser dividida em dois atos distintos. No primeiro, as luzes se dirigem para o Cícero religioso e mostram cenas como as do pároco amargurado com o sofrimento de seu rebanho com a seca, o milagre da transformação em sangue da hóstia recebida pela beata Maria de Araújo durante a comunhão, os conflitos com o bispado cearense desencadeados pelo fenômeno, a proibição de rezar missa e, por fim, sua aclamação ainda em vida como santo pelos sertanejos. No segundo ato, as luzes voltam-se para o Cícero político, em uma carreira que abraçou após ser proibido de ordenar. Em cena estão o personagem que foi prefeito de Juazeiro por quase 20 anos, sua eleição a vice-presidente (o equivalente a vice-governador) do estado do Ceará, Cícero foi ainda eleito deputado federal.

Proibido de exercer as funções eclesiásticas, estimulado pelo seu prestígio ingressou na vida política. Com a elevação do povoado a município, foi nomeado pelo governador do Ceará, Nogueira Acioli, primeiro prefeito de Jua­zeiro. Como prefeito, estimulou a agricultura de subsistência, levou para o campo modernos descaroçadores de algodão e conseguiu que os trilhos da Rede de Viação Cearense chegassem ao Cariri. “Entrei na política a contragosto, porque não teve jeito”, disse certa vez.

Segundo o que corria à época, padre Cícero era oficialmente o prefeito, porém, quem de fato administrava Juazeiro era o doutor Floro Bartolomeu da Costa, espécie de eminência política do religioso. Em 1914, a Assembleia Legislativa do Ceará reuniu-se e, por maioria, reconheceu padre Cícero como 1º vice-governador do estado. Também foi eleito deputado federal. Ele não assumiu esses cargos “para não abandonar os fiéis”.

Em 18 de fevereiro de 1931, o jornalista Paulo Sarasate, do jornal O povo, de Fortaleza, entrevistou padre Cícero, na época com 87 anos, mas relativamente forte e falando com fluência. Ardoroso inimigo de concessões estrangeiras, declarou: “Em vez de se salvar o País com impostos e empréstimos, os dirigentes da pátria devem criar um novo ministério, destinado especialmente a desenvolver as nossas riquezas naturais, as grandes riquezas que Deus nos deu. Faça-se, pois, o Ministério das Minas e Florestas. É assim que se deve crescer, e não vendendo o país aos estrangeiros. Eles comem as bananas e nos atiram as cascas.” E continuou: “E, se for possível, criemos também o Ministério de Culto, Ensino, Ciência, Higiene e Bons Costumes, para melhor realizar a reconstrução moral do país.”

 

Fonte: Revista Forum

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